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domingo, 5 de fevereiro de 2012

A extinção dos vendedores ambulantes

O Vendedor de Revistas – Arte de Angel Estevez


CRÔNICA PUBLICADA NA COLUNA MENSAL DO BLOG DA EDITORA ALTA BOOKS.
Link original http://blog.altabooks.com.br/?author=4


Hoje acordei um tanto saudoso, repleto de reminiscências. São tantas que nem conto, pois acrescentaria muitas páginas ao nosso dia e, sinceramente, pretendo não explodir em lamentos, coisa chata para quem os lê. Entretanto, como não sou de ferro – e o cara por trás do papel também precisa desabafar de vez em quando, o que faz do leitor uma espécie de psicólogo do cronista (agradeço antecipadamente o feito notável e gratuito, embora já tenha dito isso em outra crônica) – hoje estou para desabafos e um “lamentozinho” não faz nenhum mal.
Entre as recordações que tomam o dia, algumas fúteis, outras existenciais, figura uma que deve pairar sobre cabeça de muitos que, como eu, viveram nos áureos tempos dos algodões doce. Não sou tão velho assim, que fique claro, mas recordo dos simpáticos vendedores ambulantes de livros de antigamente. Muitos deles me acordavam pela manhã com suas palmas de papel amassadas e vinham com preciosidades e sorrisos. Sabiam de cor as obras, citavam com propriedade passagens e tinham promoções que nenhum shopping jamais apresentou. Eram verdadeiras bibliotecas ambulantes que não se importavam com as vendas, mas com a disseminação da literatura. Mostravam-se mais felizes com comentários acerca de algum romance do que quando retirávamos o dinheiro do bolso. Eram verdadeiros “pseudoescritores”, no bom sentido, que fomentavam a leitura mesmo quando o dia parecia terrível e você quase os retirassem a pontapés.
– Ah, mas esse aqui é ótimo. Chama-se Pollyanna, de Eleanor H. Porter, e fala sobre a felicidade mesmo quando ela parece ser difícil e…
Abríamos um grande sorriso, pois além de venderem, tinham o dom de transformarem a tristeza. Possuíam o livro ideal para cada situação.
Mas isso foi no tempo do Chevette, das coisas que não voltam mais. De lá para cá nunca mais recebi um vendedor de livros em minha casa para amansar os tempos, o que me leva a crer que foram extintos pela modernidade ou pelos grandes centros comerciais. Ou quem sabe estão escondidos e diminuíram a caminhada. Uma pena. Deveriam ser reivindicados com passeatas.  Eles não respondiam apenas pelo terceiro grande meio de vendas de livros do país, mas pelo incentivo ao consumo de cultura, pelo bem que causavam aos aflitos. Não havia como resistir ao vendedor e seu livro. Era preciso comprá-lo. Sua erudição era de deixar qualquer grande leitor no chinelo. Servia como espelho. Eles realmente cultuavam o objeto livro, cheiravam-no com apreço, lustravam-no para durarem muito mais, faziam tudo o que muitos atualmente fazem com os tablets e que esquecem de fazer com um livro.
Ah, os bons tempos de antigamente são insubstituíveis. Não que os de hoje sejam ruins, mas algumas coisas marcam a gente. Atualmente, por exemplo, os tablets marcaram a nova geração, mas acabaram de vez com esse contato pessoal. Chego a imaginar, na loucura moderna, o estranhamento de alguns vendedores frente ao aparelho, inclusive o diálogo com um desses jovens “superinternéticos”.
– E esse é o último lançamento do Jô…
– Mas eu tenho aqui, ó (mostrando o tablet luminoso).
– O que é isso?
– Meu livro.
– Mas e a capa? Brilha assim mesmo?
– Não, é essa aqui (mostrando um PDF).
– Mas deve ser muito caro. Com esse dinheiro você compra dez livros comigo.
– Que nada. Tenho 50 títulos aqui dentro.
– …! Deixa eu cheirá-lo?
– Claro
– Shuif, shuif. Nossa, tem cheio de queimado.
– Claro, é um compu…
– Como você coloca na prateleira?
– Não posso, é um…
– E a biblioteca?
– Tá aqui dentro do compu…
– Muito sem graça. E ele faz um barulho estranho.
– É que recebi um e-mail.
– Mas isso é um livro?
– É um compu…
– Ele faz café? Tem uma água se mexendo, olha. Posso tomar um gole?
– Isso é um protetor de tela. Igual ao compu…
– Eles inventam cada coisa, né? Parece até um computador!
– Mas eu estava justamente…
– Então, esse livro fala sobre um homem que…
– Tá, me dá que eu compro.
– Viu, muito melhor segurar um livro de verdade. Só não sei como você consegue colocar ele aí dentro dessa caixinha. Coloca para eu ver?
– Mas eu não coloco esse, eu baixo e…
– Coloca ele no chão?
– É baixar, download. Quer saber, tchau.
Com isso, os vendedores que restam continuariam, mas vencendo pelo cansaço.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Reticências



Arte de Angel Estevez


Ah, o tempo, o que falar sobre o tempo enquanto ainda o temos? Ele é belo e triste na imensidão restrita de um relógio. Não possui reticências, vai chegando sem avisar como onda que assenta grãos de areia, como se moldasse mármore, repletos de marcas dos que pisam. Incontestável, não está aí para o canto dos pássaros ou a jovialidade do mocinho. Quando bem entende, ceifa os desejos até então escondidos por trás das tentativas de perenidade.

Que fique claro para o leitor que o tempo citado era o de antigamente, ou como acredito, com perdão do tom, como era para mim. O nosso tempo, moderno, dinâmico, televisivo e tecnológico, parece gostar de postergar um pouco mais as coisas. É meio preguiçoso. O de hoje, ao contrário, nos dá mais tempo para tudo: amor, velhice, sonhos e futilidades. É nítida a diferença entre esses tempos – principalmente quando comparamos as fotografias atuais com as antigas e vemos que parecemos mais eternos nas atuais.

Essa semana, por exemplo, olhei uma foto de quando tinha dezoito anos. Cara limpa, espinhas, topete, e tudo o que uma foto dessas pode conter. Não era tão recente assim, mas moderna em relação aos meus antepassados. Meu pai então nem se fala, forte, abrupto, com a vida inteira pela frente. Ah, a eternidade. O tempo tinha essa coisa de nos fazer enlouquecer pensando que duraríamos para sempre.

Já as fotos de antigamente, e coloque aí séculos sem fim, eram menos promissoras de longevidade. Descobri isso pesquisando uma foto de Mark Twain em seus dezesseis ou vinte anos, não lembro ao certo. O tempo de antigamente era mais voraz na sua emancipação mortal. Com apenas dezesseis anos, Twain parecia ter lá seus trinta ou trinta e cinco. Cabelos oblíquos, bigodes avantajados, as marcas das ondas no rosto. Não, não podia ser. Como aparentava ser tão mais velho do que realmente era? Foi então que descobri que o tempo de antigamente não conversava, baixava seu cajado sem pudor. E sabe por quê? Não notava a despreocupação de nossas atuais fotos. Com isso açoitava a vida dos sérios. Podem conferir. Todos posavam para as fotos com uma sisudez de quadros em preto e branco sem espaço para reticências. Nem um pequeno sorriso. Aí vinha o tempo, olhava aquele rosto marcado com um grande ponto final, e fazia seu trabalho.

E assim foi com as demais que encontrava. Nietzsche, Freud, Einstein, todos aparentavam seus trinta ou quarenta quando tinham apenas vinte ou menos. Perguntei-me se fora excesso de preocupação. Talvez. Hoje nos esforçamos muito mais para não nos preocuparmos, levamos a vida na ponta dos dedos. Podemos esticar nosso corpo numa rede e balançamos à favor do vento sem pensar em nada. Antigamente, todos sofriam sem realmente sofrer, e olha que nem possuíam nossos males modernos: televisão, computador. Não havia motivo para serem amassados por algo que hoje nos dá uma colher de chá, o tempo.

Fico olhando minhas fotos e vendo o quão sortudo sou (somos). O tempo não nos deu suas mãos ásperas, mas espera lentamente para que concluamos algum desejo, mesmo os mais absurdos. Ou talvez sejamos menos intelectuais e isso possa ajudar bastante. Quem sabe o tempo de antigamente pegava severamente todos os grandes pensadores justamente por eles se preocuparem demais com ele? Não sei, não sei. O que sei é que meu pai sorri numa foto antiga, meu cachorro brinca eternamente com seu osso, ainda tenho muita reticência pela frente e trocaria qualquer emancipação intelectual pela feracidade da juventude.

domingo, 6 de novembro de 2011

As fantasias nossas de cada dia


Pintura de Picasso

É engraçado como os leitores de crônicas podem ser sugestivos com suas palavras. Se pensarmos bem, leitores de crônicas são mais cronistas que os próprios escritores. Eles pegam o texto, desmembram-no, fazem uma crítica e reconstroem tudo como um novo texto, fresquinho, com gosto de notícia atual.

Só que aí vem o cronista, fofoqueiro de plantão, e abocanha aquele pedaço de pensamento, ilusão que não é sua e passa a servir como mote para um novo texto sem que seu real dono saiba sequer que aquelas linhas saíram de algo que ele proclamou como verdadeiro.

Pois é assim, roubando, no bom sentido da palavra, que começo esta crônica, advinda de um comentário feliz que tive o prazer de ler.
Ele, o verdadeiro cronista, é um amigo de letras há tempos. Sempre florido com seus comentários sobre meus textos, gracioso por não refutar minhas ideias, serve agora de impulso, tudo por um pequeno comentário que, na verdade, é de um terceiro, ou melhor, do grande músico João Bosco.

Que me desculpe esse meu amigo, mas roubo-lhe descaradamente a ideia pomposa de sua recordação e comentário: "custei a compreender que fantasia é um troço que o cara tira no carnaval e usa nos outros dias, por toda a vida”.

Carnaval à parte, pois não sou muito festeiro, o que meu amigo e o grande músico comentam é justamente o que impulsiona nossa vida. Para quem não entendeu fica a explicação: no carnaval podemos ser realmente quem somos. O resto do ano passamos fingindo ser algo para que o sistema nos aceite e possamos andar por aí sem sermos notado.

Pensando assim posso entender o porquê de muitas pessoas andarem descontentes ultimamente. Há um grande descontentamento pairando sobre muitos, não? O salário não está bom, o estudo vai mal, o amor é um grande problema, as greves, as escolas, a vida. E eles aguardam todos os anos a chegada do carnaval para tirarem essa fantasia de homem em progresso e serem realmente quem são, ou seja, leves.

Somos felizes por natureza, mas a posição e o status social que buscamos pede-nos uma seriedade muito maior do que a suportada. Somos fanfarrões, brincalhões, foliões por essência. Não gostamos da tristeza, mas somos obrigados a engoli-la para posarmos para a foto. Sendo assim, nada melhor do que comprar máscaras para viver essa vida irreal que temos.

Não estou sendo radical: vivemos uma vida irreal, sim. Quantos de nós seguram o riso perante uma coisa engraçada para não mostrar falta de seriedade? Quantos de nós se agarram a conceitos com medo de sermos nós mesmos e levarmos um tapa da vida? Quantos de nós desistiram de um amor com medo do ridículo? Por que não somos como as crianças e deixamos tudo para lá numa brincadeira eterna? Porque somos obrigados a levar uma vida onde sonhos não se encaixam.

O cara do balcão, com gravata e terno, é muito mais engraçado do que pensamos. O professor é muito menos sábio do que parece, e isso é justamente toda a sabedoria do mundo: não ser excepcional. Somos essencialmente alegres, mas escondemos isso pois achamos que felicidade excessiva é prejudicial para a vida.

Aí esperamos o carnaval, dia em que tiramos tudo do corpo e vamos com a alma para a pista. Dançamos até o outro dia, inflamo-nos com amizades e esquecemos nossas máscaras frias em casa. Beijamos o outro, praticamos o amor, pulamos até dizer chega como se o carnaval fosse um motim, uma rebelião. E realmente é. O carnaval é a rebelião que tentamos conter mas precisa ser libertada. O problema é que não podemos viver num eterno carnaval. E se, por um acaso, o vivêssemos internamente?

Depois os dias comuns voltam e nos embolamos com guarda-chuvas, ônibus e cenas. Vivemos o teatro nosso de cada dia e pensamos, dormimos, acordamos como se nada houvesse acontecido.

E os cronistas, fofoqueiros eternos, espreitam todos os dias esses pequenos homens felizes a espera de lhes roubar alguma felicidade para que ela entre no texto e ele seja um pouco mais leve como de costume.

domingo, 2 de outubro de 2011

Amor é coisa de velho

Arte de Modigliani

Passei a enxergar os relacionamentos com outros olhos de uns tempos para cá. A analisá-los por outra ótica só para notar diferenças e me atualizar nas questões amorosas. Que isso não seja motivo para eu ser ser chamado de volúvel ou influenciável, longe de mim. Ainda acho o amor uma das coisas mais emocionantes e importantes do mundo (e, como diria Wilde, mais misterioso que a morte). Propositalmente incompreensível, sim, mas de fácil aceitação quando você não entra em convenções superficiais.


Embora muitos afirmem que vivemos em uma época de velocidades – internet, convergência de comunicação, tempo – sexo e troca de parceiros inclusive – não gostaria de assumir como verdadeira essa teoria de que todos são inconstantes a ponto de estarem com alguém apenas pelo simples fato de terem uma companhia para os fins de semana. Ou pelo menos esperava não encontrar alguém para confirmar tal pensamento, fato esse que aconteceu para o meu espanto. Conversando com um dos meus amigos sobre seus relacionamentos, tive a impressão de que sou um cara a moda antiga, velho, preso em busca do tempo perdido.

Quase sempre gosto de uma conversa do tipo análise psicológica sobre o amor, qualquer que seja; expor minhas opiniões um tanto particulares e ouvir outras radicais que me deixam perplexo. Mas o último diálogo sobre o tema deixou-me extremamente assustado. Com ele pressenti que estamos realmente vivendo como em um Blade Runner onde não há espaço para sentimentos, frivolidades a dois, dores de cotovelo ou paixões desesperadas, apenas para a selva que nos engole enquanto nos colocamos atrás de computadores, teclando e contando sem olhar para coisas mais interessantes que a mecânica diária. Ou quem sabe meu amigo estava meio aéreo.

O diálogo foi curto em virtude do meu assombro.

— Ela é bonita e tal. Mas quero que seja mais imponente.

— Como assim?

— Antes de apresentá-la para alguém faço a vistoria. Se alguma coisa não servir, mando trocar.

— Mas e os princípios?

— Que princípios? E minha reputação? Preciso me precaver.

— Mas se você a ama, sente algo, não liga para...

— Isso é outra história, que não é bem assim. E quem falou em amor? Amor é coisa de velho.

Infelizmente, tenho que dizer isso, não afirmando por um fio de esperança que passa por mim, mas vivemos em um mundo cheio de robôs disfarçados de gente, que prometem mundos e fundos e sequer recordarão o aniversário ou as bodas. O típico homem atual (e por que não a mulher atual?) está preocupado em fazer pose na roda de amigos a ter um amor enlouquecedor como o de Manuel Bandeira pelas suas mulheres ou como o do grande Cyrano de Bergerac, que preferiu esconder sua dor pela felicidade de sua jamais alcançada dama. Preocupa-se com aparências quando deveria não estar nem aí para como ela come à mesa ou como se comporta em uma festa mais chique. Elegante não é ter que dividir sonhos ou situações embaraçosas quando um olha para outro, cúmplices, mas escapar de falhas ou gafes para que tudo continue bem no fingimento ficcional, que acaba quando, na cama, viram para a parede ou a deixam na porta de casa com um beijo seco. O conto termina e tudo volta ao que era antes. Se não houve sintonia, descartam um ao outro como se houvessem lixeiras ecológicas em cada esquina: “mulheres de plástico ”, “mulheres de vidro”, e assim segue.

Amor é coisa de velho, de quem já passou pela vida e não sabe sequer utilizar a seu favor o que a modernidade tem de melhor: o descarte instantâneo.

Amar é difícil, eu sei. Sentimos, contrariando Camões, uma dor profunda. Não queremos nos entregar a esse sofrimento homérico. Mas o mundo é muito mais triste se olhado sozinho, por um único ângulo. Quantas funções novas encontramos para uma árvore, pedra ou para o entardecer sozinhos? Não vamos além de nossa capacidade solitária. A solidão é coisa de velho?

Peço que todos revisem seus conceitos. Amar vale a pena. Não é preciso se atolar entre papeis e calculadoras tão frias e metódicas nem disfarçar o medo do novo ou comprar parceiros na liquidação do shopping. Se até mesmo o Windows tornou-se sentimental (quando apertamos algo que não o agrada ele reclama através de uma telinha com mensagens) o que dizer de nós? Continuaremos nos escondendo para não assumirmos que, sim, somos frágeis, choramos como bebês ao vermos uma novela ou quando rejeitados? Pense bem no que estamos perdendo, uma vida inteira de experiências.

Sejamos menos temerosos e mais esperançosos. Os relacionamentos ainda tem algo de orgânico. E, por favor, esqueçam os disfarces em casa. Debulhem-se quando for necessário. Só não cumpram o papel irresistível de sonharem com um príncipe encantado (ou princesa). A modernidade ainda não foi tão longe assim. 

sábado, 6 de agosto de 2011

Eu hoje fiz uma regressão

                                                                                           Arte de Monet

Hoje fiz uma regressão. Que fique claro: não foi uma TPV, Terapia de Vidas Passadas, tão comum atualmente. Foi uma regressão, digamos, subjetiva e memorialista, dessas que deixam a alma repleta de suspiros e a cabeça meio ensolarada.



Passando frente a um antigo boteco do centro do Rio, voltei aos meus dez anos de idade. A visão de um boteco é uma das lembranças de minha infância. Os “pés de cana”, cambaleando como se ritmassem passos de um rock moderno, não são as principais figuras da história, embora também façam parte da moldura. Falo de coisas mais universais como o caldo de cana, os chouriços e os ovos cor-de-rosa que fazem a estufa de vidro sob o balcão lacrimejar e eram severamente proibidas para as crianças.

Faz tempo que não vejo tais objetos históricos de minha infância. Fui obrigado à esquecê-los. Quando porventura entrava em algum boteco na esquina de minha saudosa rua, a fim de comprar pastéis, sentia-me encantado com aqueles ovos rosas e azuis e com os salames descomunais pintados de negro. Não tinha pastel que retirasse a vontade de morder um chouriço ou ovo rosa, porém as reclamações de minha mãe, que dizia serem pesados para crianças, eram intransponíveis.

Cresci lembrando de esquecer meus desejos. Até essa semana. Como pode um simples bar reanimar a alma infantil de um ser? Até mesmo o caldo de cana, insuportável ao meu paladar de garoto encantado com os chouriços, conseguiu reviver os dias em que passava com meu avô na pastelaria perto de casa. Hoje o caldo tem um gosto diferente, não o repudio mais. Há um sabor de lembrança que não existia. Naquela época, o máximo que sentia era um paladar de terra e açúcar.

Os chouriços nunca foram experimentados e me causavam um certo pânico que durou até hoje. Não sei quem disse, mas ainda acredito serem feitos de sangue de boi pisado e embalados numa coisa feia e viscosa. Isso me dava repulsa ao ver os beberrões se empanturrando, retirando vários às palitadas. Pensava no boi e naquele sangue e corria com medo. Coisas de criança.

Mas de tudo que compõe a moldura empoeirada da lembrança, jamais esqueci os ovos cor-de-rosa. Eles tinham um mistério grego na sua composição. Ao chegar em um boteco, a primeira coisa que pensava era no ser mitológico do tamanho de uma avestruz, rosa e azul, que punha aqueles ovos modernos. Quase cheguei a comprar um só para aguardar e ver o que sairia de dentro dele. Novamente o desbravamento foi impossibilitado pela minha protetora.

Como todo mistério acaba, os ovos foram desmistificados quebrando os mistérios em torno do balcão. De tanta curiosidade, meu pai conseguiu um corante para bolos, colocou alguns ovos para cozinhar e despejou o líquido vermelho na água. Alguns minutos depois brotaram na panela os perfeitos e verdadeiros ovos rosas do suposto monstro mitológico. Meu desapontamento foi grande. Como poderia aquela coisa rica de mistérios ser simplesmente um truque dos humanos? O melhor que podia fazer era comê-los acreditando estar violando algum segredo antigo enquanto monstros azuis me espreitavam.

Essa semana eu fiz uma regressão. E não me espantei com os ovos ou com o bar, mas com a sensação que eles trouxeram. A coisa mais viva que senti daquele tempo foi o ser rosa a me espreitar, cuidando para que eu não roubasse seus ovos enquanto os homens, já imersos em suas bebidas, travavam uma grande discussão sobre futebol.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O amor na troca de um cachorro-quente

Pintura de Gustav Klimt


Antigamente o amor era mais simples. Já devo ter dito isto uma penca de vezes, mas é verdade. O amor era muito mais simples do que hoje em dia. As meninas não se interessavam por nada a não ser pelo brilho nos olhos do rapaz. Os rapazes não desejavam apenas uma noite de amor e se esvaírem para nunca mais aparecerem. O negócio era mais eternizado. Os casais se preocupavam com a aparência e com os bons costumes praticados pelos leves amantes. Não havia o horror de ser deixado para trás por ele ou ela por banalidades. Os romances existiam e ninguém ultrapassava o sinal em uma concessão harmoniosa.


Isso era antes, no tempo dos cachorros-quentes, do namoro pisca-pisca e das corridas de submarinos. Eu não estava lá para ver, mas a grande onda dos anos de 1970, por exemplo, era a corrida de submarinos que arrebatava casais cheios de expectativas. Eram fileiras de carrinhos a olharem a agitação do mar enquanto submarinos atravessavam o horizonte madrugada adentro. Coisa fina, simples e de grande intervenção cultural já que as máquinas guardavam os segredos da Segunda Grande Guerra. Alguns não viam nada, óbvio; estavam preocupados com coisas mais importantes que submarinos ou guerras, como beijos ou declarações.

Quando não eram submarinos, a paquera – porque antigamente havia paquera e não essa enrolação de hoje cheia mãos, frases prontas e nervosismo zero – estava no namoro pisca-pisca, que consistia em estacionar um carro atrás do outro e piscar o farol. Uma piscada significava que o carro era feminino, duas masculino. Entre indecisão e nervosismo, a brincadeira acabava em casamento, como muitos podem relatar. Coisa fina, finíssima.

O nervosismo também contava ponto. Quanto mais nervoso o rapaz estivesse, mais interesse demonstrava e mais amado seria. Não era de bom grado ferir os sentimentos da futura esposa (sim, todos pensavam em se casar. Ninguém namorava por um mês ou explorava várias opções). As moças se derretiam pelo nervosismo. Achavam-se importantes. Coisa finíssima mesmo.

O ápice do namoro, que consumava para sempre a união, era a ida à carrocinha de cachorros-quentes. Havia uma em cada esquina ou praia à espera dos amantes. Ele, depois de piscadas e corridas, convidava sua futura mulher para a maior de todas as declarações: a troca de cachorros-quentes. Ela, tonta de paixão, aceitava. E ele só pagaria porque a amava. Chegando lá, era responsável pelo pedido. Mostrava que entendia tudo sobre cachorros-quentes para não fazer feio. Com ketchup, mostarda e bastante amor para ela. Trocavam mordidas inclusive. No cachorro-quente estava a certeza do amor fiel, sem interesses, simples e digno da eternidade. Depois os dois seguiam para a casa, cada um para a sua, e aguardavam ansiosos o próximo cachorro, a próxima piscada ou a nova corrida.

Hoje, não, não interessa mais o nervosismo. Quanto mais nervosas, mais estranhas são para o parceiro. Eles querem ir direto ao ponto. Por que nervosismo? Ela não será a mulher da vida dele mais do que algumas horas. E cachorros-quentes para quê? Coisa inútil, démodé. Melhor que ela pague o seu Big Mac e divida o milk shake.

Ninguém quer trocar cachorro-quente enquanto a praça lota de crianças correndo para lá e para cá. Sequer comentam: – "as nossas farão a mesma coisa né amor?". Estão preocupados em bebericar até o dia seguinte e terminarem no hotel. Se puderem não lembrar de nada, melhor ainda. Ela não sonha com o príncipe, ele não procura princesas. Romances não existem e, quando há, é coisa de velhos.

Eu não acompanhei esse tempo, mas gostaria muito que as coisas fossem como antes. A praça era o melhor ponto, os fuscas os melhores carros, os vestidos a beleza dela e o brilho nos olhos e nervosismo a melhor comprovação de que o amor duraria mais do que apenas alguns minutos. E os cachorros-quentes, tão esquecidos pelos amantes de hoje, trocados por shoppings e grandes salas de cinema 3D, valiam muito mais que qualquer modernidade. Por isso talvez eu goste tanto de cachorro-quente. Enquanto existirem, a eternidade dos romances trunfará na simplicidade dos interesses e nas cartas amassadas de amor. 



DOIS POEMAS INÉDITOS

Exposição de fotografias de 1957


A fotografia na parede branca
(de algum lugar no remoto universo)
com sua casa de pau
com sua charrete velha
com o vazio da urbanidade
       a dar mais vazão para a vida
e uma igrejinha no alto
de um morro preto e branco
emoldura muito mais a felicidade
do que a modernidade das grandes metrópoles.


Poema para a garota apaixonada


Todo amor é ácido.
Por isso, as almas são doces:
para adoçarem a medida
dos amantes.

domingo, 15 de maio de 2011

Homem que é homem gosta de ir às compras

http://www.clubedeartesanato.com.br


Não fiz para puxar o saco da mulher, mas para mostrar que homem que é homem tem na veia a força masculina para suportar tudo e não faz corpo mole para nada, muito menos para compras.

Isso de homem que não gosta de fazer compras é coisa de preguiçoso, mentira para não fazer nada, ficar em casa, de pés para o alto, enquanto a mulher sofre o desgosto da escolha solitária. Se ela o chama para ir ao shopping é porque quer muito mais do que vendedoras ou espelhos lhe dizendo que o modelo caiu muito bem, que a moda saiu de moda ou que o preço não é tão atrativo para a função. Quer a visão do homem como o verdadeiro reflexo da sua intenção.

Eu, por exemplo, gosto de supermercados. Não conheci nenhum homem que gostasse e, por enquanto, sou o único da espécie. Passo horas rodando as prateleiras em busca de novidades e produtos. É como se o lado feminino florescesse ao passar pelo detector de metais. Se não compro nada, pelo menos fico sabendo das últimas novidades que chegaram para abalar a cozinha. Nessas caminhadas, descobri refrigerante de abacaxi e maçã e biscoito sabor Inhame. Pode parecer que não, mas ir ao supermercado é beber no poço da cultura alimentar e lhe traz uma certa elevação.

Minha mulher, como todas as mulheres, também gosta de compras, principalmente em shoppings. Ela compete comigo no quesito quem é o mais chato. Olhamos tudo e não levamos nada. O único defeito é que ela gerencia minha conta e, quase sempre, é responsável pelos armários de casa. Nem tudo pode ser perfeito.

Dessa vez a prova hérculea não foi um supermercado, mas um shopping. Combinamos de andarmos em busca de promoções arrebatadoras. Isso faria qualquer homem entrar em pânico. Homens são mais objetivos e dinâmicos nas compras. Vão direto aos locais necessários. Já as mulheres são sonhadoras, precisam de vários olhares antes de decidirem algo. Muitas vezes, a ideia só surge quando estão frente à vitrine – depois de rodarem o local inteiro.

Nessa jornada foram quatro horas perdidas em prol de coisas que não apareceram. As roupas se tornaram uma prova de paciência. Como grande homem que sou, representante da classe, não joguei a tolha do cansaço - fui até o fim. Não para agradá-la, mas para mostrar que todo homem pode se render aos caprichos de um bomshopping.

Você que me lê deve achar masoquismo, se for homem. Se for mulher, deve achar loucura talvez. Nada disso. Homem que é homem compartilha até a indecisão; enfrenta os intermináveis corredores de uma seção feminina em busca de promoções e, juntamente com ela, veste de tudo até que alguma coisa faça sentido. Porque não é somente a mulher que experimenta um modelo ou maquiagem, o homem também se vê mentalmente na posição de manequim; precisa saber se a compra será válida, se fará sucesso com as amigas dela ou será apenas souvenir de armário. Caso nada seja agradável, é preciso ser condescendente com o fato do modelito ser apertado demais e sair reclamando.

Foi por aí. Ficamos horas rodando os setores. O homem aqui foi além do que poderia suportar os comuns (agora não sou tão comum, estou próximo de Hércules). Minha mulher sequer sabia o que buscava. Eu entrei no jogo como Clodovil. Dei dicas, busquei adereços, incrementei looks e pus-lhe cintos. Ela, irremediável aos meus gostos, sentiu-se surpresa. Eu também me senti. As vendedoras também. Coloquei-lhe uma blusa xadrez que a deixou mais elegante, coisa que só eu, espelho masculino, enxergava. Depois fomos para o provador. Exigi-lhe que voltasse lá de dentro para eu avaliar minhas dicas. As mulheres quase me bateram por eu tentar entrar juntamente com ela. No fim das contas, fui um homem completo, daquele que olha para si mas sente o gosto do outro.

Homem que é homem tem que provar o gosto de um batom, a cor de uma maquiagem, o peso de uma bolsa ou a fragrância de um perfume. Ficar horas em um corredor ainda é pouco. A mulher quer o homem como uma parte sua. É nas compras que ela definirá seu casamento. E ele sua masculinidade.